Como é a relação entre os militares em uma Unidade Militar?

Você com certeza já viu aqueles filmes americanos que retratam a vida nos quartéis, os militares mais antigos vivem berrando com os mais modernos e tudo parece perfeitamente padronizado, nada fora do lugar, com todos se portando de forma robótica, não é mesmo?


Já ouviu histórias do seu pai da época em que ele serviu ou ainda, daquele YouTuber embusteiro que nunca serviu, ou passou 1-2 anos nas Forças Armadas e fala como se tivesse um profundo conhecimento sobre todo e qualquer tipo de assunto militar?


Pois é, eu sei! No primeiro caso, você tem que entender que nem sempre os filmes retratam a realidade vivida de uma forma assim tão realista, podendo sofrer influências que vão desde as características do elenco, produtores e até mesmo o local onde foi gravado. No segundo caso, das histórias que você ouve por aí, saiba que nós, seres humanos, temos uma tendência muito grande de modificarmos a realidade de acordo com aquilo que acreditamos, com os nossos pontos de vista.


Simplificando: filme é feito pra vender e todo mundo é embusteiro, ou seja, gosta de contar vantagem!


E isso tudo acaba gerando em você, jovem candidato, uma visão muitas vezes equivocada do que seria a vida de um militar. Muitos jovens fazem perguntas do tipo "se um militar pode fazer faculdade", "se tem como casar e ter família", etc, num claro sinal de desconhecimento da realidade do cotidiano de um quartel. E não tem nada de errado com isso, na verdade. Eu mesmo, quando era candidato e estudava para o concurso da EsPCEX, adorava ver filmes de guerra e ficava imaginando como seria a minha vida na AMAN, as instruções e experiências que eu vivenciaria. E como eu não conhecia nenhum militar das Forças Armadas e não existiam canais no YouTube ou blogs bizurados como este aqui, eu basicamente construía na minha cabeça aquilo que eu imaginava como sendo a realidade que eu viveria.


Mas, antes de mais nada, é importante que você entenda que no quartel existem humanos, não robôs! Eu sei que pode parecer algo óbvio, mas falo isso para que você perceba claramente que as nossas tropas, sejam elas da Marinha, Exército ou Aeronáutica, são constituídas de pessoas como eu e você, que tem anseios, medos, esperanças, etc. Sim, medo!!! Militar tem medo sim! Militar se machuca, vai ao médico, sente dor. O Rambo imortal só existe mesmo no cinema, na vida real somos todos reais e temos as nossas limitações.


Sendo assim, como bons humanos que somos, as relações entre os militares serão regidas pela personalidade de cada indivíduo, ou seja, não existem padrões. Não é por que um militar é oficial que ele vai ser babaca com um sargento. Não é por que o cara é soldado que ele é gente boa. Existe muito oficial gente boa e muito soldado babaca também! Além disso, é importante notar que tudo depende do ponto de vista sob o qual certa história é contada.


Por exemplo, se liga nessa história...


Certa vez, eu, como Oficial-de-dia no batalhão em que servia, estava fazendo a minha ronda de madrugada e, ao passar por uma companhia, não encontrei o sentinela que deveria estar em seu posto. Comecei a procurar nas instalações e encontrei o militar dentro do alojamento, mexendo no seu celular, algo que é proibido. Indaguei o militar sobre o porquê de estar fazendo aquilo e ele me falou que estava falando com a avó dele, que estava doente. Perguntei então se ele havia informado ao cabo-de-dia, militar imediatamente mais antigo que ele no serviço, ao que ele me respondeu que não. Ou seja, explica, mas não justifica. O procedimento correto do militar deveria ter sido informar ao cabo-de-dia sobre a doença da sua avó e deixar o seu celular com ele no momento em que estivesse no seu quarto de hora, desse modo, se ocorresse alguma emergência com a avó do militar, o cabo imediatamente acionaria o sargento-de-dia e nós tomaríamos as medidas necessárias para que o militar pudesse prestar o apoio necessário à sua família. Se necessário fosse, pegaríamos a viatura de serviço e nos deslocaríamos até a casa da avó do militar para ajudá-la, como, aliás, eu já fiz.


Desse modo, anotei o militar no livro do oficial de dia e ele teria que se explicar para o seu comandante de companhia, que poderia optar por puni-lo. Voltei ao meu alojamento e fui dormir. Algum tempo depois, o soldado aparece no meu alojamento, bate na porta e vem tentar se explicar, praticamente chorando, dizendo que aquela punição poderia fazer com que ele não engajasse no final do ano, que era um bom militar, etc. O que eu fiz? Dei um esporro nele, LÓGICO! Por que ele não pensou nisso antes de cometer a alteração? Mandei o militar voltar ao seu alojamento e determinei ao adjunto que lançasse o militar no livro do serviço.


Mas qual você acha que foi a história que o soldado contou para os seus companheiros de companhia no outro dia? Ele falou que agiu errado, que deveria ter tomado o procedimento correto e que eu havia sido justo com ele? CLARO QUE NÃO. Para ele, a história se resumia da seguinte forma: "O ten Thiago Henrique é um babaca e me anotou "só" por que eu estava mandando uma mensagem bem rapidinho para a minha avó, coitada, que está em casa doente". Detalhe, não entrei nem no mérito de verificar se o militar estava mesmo falando com a avó dele! Será que estava? O que você acha?


Ou seja, para todo mundo que conversasse com aquele soldado, ele passaria uma visão de que oficiais são babacas e tratam os mais modernos com grosseria e de forma desumana!


A verdade é que todos nós só contamos a história que nos convém contar!

Dá uma olhada nesses dois vídeos abaixo que você vai entender melhor esse tema. Neles, eu falo sobre a relação entre Oficiais na tropa e também entre cadetes em formação na AMAN. Perceba que, como falei, o ponto primordial para determinar como é a relação profissional em determinado local é a personalidade das pessoas envolvidas, ou seja, independente do posto ou graduação do indivíduo, se ele é temporário ou de carreira, o que vale mesmo é o caráter!




1º Ten Thiago Henrique - CEO Elite Mil

FÉ NA MISSÃO!