3 COISAS QUE IRÃO TE SURPREENDER AO INGRESSAR EM UMA ESCOLA MILITAR

Atualizado: 16 de Jun de 2018

Se você leu o nosso primeiro post aqui no Blog (Onde Tudo Começa), onde conto um pouco sobre a minha trajetória rumo à EsPCEX, sabe que não sou filho de militares, tendo estudado durante toda a minha juventude em escolas civis. O meu primeiro contato com os jargões e algumas características militares veio das leituras dos livros do meu autor preferido, Frederick Forsyth, escritor inglês mundialmente famoso por escrever ficções baseadas em cenários relevantes da história mundial, sobretudo relacionadas ao período da Guerra Fria e Pós Guerra Fria (dentre os livros que mais me marcaram, estão "Cães de Guerra" e "O punho de Deus", cuja leitura recomendo fortemente). Ou seja, eu só conhecia a teoria! Até os meus 18 anos eu jamais havia sequer conversado com algum militar do Exército, de modo que, ao me apresentar na EsPCEX para iniciar a minha formação, algumas coisas me surpreenderam e, mais do que isso, mudaram a minha vida para sempre.

Momento da minha apresentação nos portões da EsPCEX
Nesse post gostaria de compartilhar com você quais foram essas coisas que tanto me surpreenderam, com o objetivo de ajudar você nesse processo tão difícil e doloroso de passagem da vida civil para uma rotina militar!

Nº 1: OS DIAS PODEM TER MUITO MAIS QUE 24H!


Definitivamente, essa foi a coisa que mais me surpreendeu e, sinceramente, ainda me surpreende muito! Lembro bem que no primeiro dia após a minha apresentação na EsPCEX, a nossa alvorada foi às 06h da manhã, ao toque insuportável de uma corneta que mais parecia um trem buzinando bem ao meu lado (aliás, você vai acordar assim, todos os dias, durante a sua formação)! Obviamente eu já estava acordado desde as 05:00, pois a maioria dos alunos, ansiosamente, já arrumava as suas camas e os seus pertences desde muito cedo. O primeiro dia, fora de casa, dormindo em um alojamento cheio de estranhos (que em breve se tornarão a sua família), é assustador!


No dia anterior nós havíamos sido orientados de que, por ocasião do café da manhã, que seria às 06:30, nossas barbas deveriam estar feitas, a nossa cama deveria estar arrumada e o alojamento deveria estar limpo, com todos os nossos pertences guardados organizadamente no nosso armário. Desse modo, às 06:20 nós estávamos em forma para tomar café (onde nossas barbas foram checadas e os alunos barbudos foram devidamente anotados) e, após entrarmos no refeitório (rancho), nos foi falado que teríamos 20 minutos para comer (muito tempo, aliás). Após o café, fomos divididos em grupos, e cada grupo foi dirigido à uma determinado atividade. Uns foram para a inspeção de saúde, outros para uma instrução básica de procedimentos que deveriam ser seguidos, outros ainda foram receber materiais na subtenência (local onde são armazenados materiais diversos, como fardas, itens de faxina, etc, e que é chamado assim pois o seu responsável é um subtenente). Além disso, alguns alunos, meio cabeludos (foram rapidamente apelidados de Bob Marley pelos instrutores) foram encaminhados para o barbeiro (aqui vão duas dicas para você: 1) se apresente na escola com o seu cabelo e as suas UNHAS devidamente aparados e 2) você não precisa passar a máquina 1 ou até mesmo a 0 para se apresentar na escola, basta realizar um corte mais baixo, em geral na máquina 3, na parte superior da cabeça e 2 nas laterais - O importante mesmo é não se apresentar com o cabelo gigantesco).


O primeiro dia, fora de casa, dormindo em um alojamento cheio de estranhos (que em breve se tornarão a sua família), é assustador!

Rapidamente chegou o horário de almoço e, após isso, tivemos 15 minutos de descanso, onde deveríamos realizar a nossa higiene bucal (você verá que os momentos de intervalo serão os mais cômicos da sua vida militar) e, obviamente, muitos alunos não conseguiram completar essa simples tarefa a tempo, o que gerou uma série de gritos e esporros por parte dos instrutores que, aliás, jamais riam ou expressavam alguma compaixão com a nossa situação (segurar o riso nessas situações é sempre um grande desafio). Após o almoço, continuamos realizando as diversas atividades relativas à apanha de material, inspeções de saúde e instruções bem básicas de procedimentos. Dentre essas instruções, tivemos o nosso primeiro contato com a ORDEM UNIDA pois, para onde quer que fôssemos, deveríamos sempre ir em forma, ou seja, dentro de uma formação. Eis que, ao final da tarde, fomos encaminhados novamente para o rancho para jantar e, após isso, as atividades continuaram, onde passamos um tempo aprendendo mais ordem unida e recebendo orientações dos militares mais antigos, dentre eles uns tais "aspirantes", que ficavam conosco desde a alvorada até o horário de dormir (depois de um tempo eu entendi que esses "aspirantes" eram cadetes da AMAN que estavam apoiando a nossa adaptação e que eram chamados assim pois já estavam no último ano de sua formação). Por volta das 21h nós fomos levados para a ceia, onde ainda recebemos mais orientações e determinações do capitão comandante da companhia e, finalmente, por volta das 21:30 fomos "liberados" para dormir.


Eu havia acordado às 05:00 da manhã, havia andado para todos os cantos da EsPCEX durante todo o dia e, logicamente, estava desesperado para torar (dormir)! Mas antes disso, eu teria que fazer algumas pequenas atividades, dentre elas: 1) eu deveria aprender o padrão que nos foi ensinado de arrumação da cama, e colocar os elásticos por baixo da manta para que ela ficasse totalmente esticada (além de colocar o elástico por baixo da manta, nós também costumávamos passar ferro nela, com o objetivo de mantê-la esticada). 2) eu deveria confeccionar uma redação de 50 linhas para um dos "aspirantes" com o tema "Por que não devo rir do meu companheiro quando estiver em forma" (como disse, é muito difícil não rir das nossas bizonhices, e essa sempre foi uma grande dificuldade para mim) 3) Engraxar o meu tênis preto e arrumar o meu armário de acordo com o que havia sido padronizado.... dentre outras coisas mais relacionadas à organização do meu espaço. Como você deve imaginar, nós varamos noite adentro, com muitos alunos tendo preferido dormir no chão para manterem as suas camas arrumadas e, dessa forma, não levarem esporro ou FO - dos cadetes (Fato Observado Negativo - é quando você comete alguma transgressão e isso é visto e anotado por algum militar mais antigo, podendo você ficar punido no final de semana por causa disso, dependendo do que seja essa transgressão). Por volta das 2-3h da manhã caí no sono, exausto e, após o que me pareceu apenas 15 minutos de uma soneca, ouço aquela corneta miserável mais uma vez, marcando o início de mais uma jornada de trabalho. Eram 06h da manhã, eu estava exausto, a maioria dos meus colegas já estavam prontos, pois haviam acordado mais cedo, ou seja, eu estava no sanhaço alado e, como disseram os aspirantes, por ocasião do café da manhã: "Só se passou o primeiro dia, senhores. Falta apenas, TUDO!. É melhor desistir agora e se poupar de todo esse sofrimento". Mas eu não ia desistir! E isso nos leva à 2º coisa que mais me surpreendeu na vida militar...


Nº 2: A PRESSÃO PSICOLÓGICA É CONSTANTE!


Isso eu pude sentir desde a entrada nos portões da EsPCEX, porém só fui entender muito tempo depois, quando tive a oportunidade de participar de instruções "do outro lado da prancheta", ou seja, como instrutor. A pressão psicológica é uma constante em basicamente todos os cursos de formação e especialização do Exército, porém, obviamente existem diversas formas de exercê-la sobre o aluno. É lógico que não se pode aplicar a mesma forma de pressão psicológica em um aluno da EsPCEX que está no seu segundo dia de Exército que é aplicada em um militar experiente que está realizando um curso operacional, como o curso de ações de comandos ou de guerra na selva (em outros posts e vídeos no nosso canal no YouTube irei falar um pouco mais sobre os planos de pressão psicológica em cursos operacionais). No caso das escolas de formação militar, a pressão psicológica realizada no dia a dia tem muito mais a ver com as diversas atividades que você tem que realizar, em um curto espaço de tempo, e com o fato de que você estará sendo o tempo todo avaliado. Ou seja, você vai ter sempre um monte de coisa para fazer, pouco tempo para isso e se errar (e você vai errar!), com certeza você será observado, anotado e, muito provavelmente levará um belo esporro e ficará punido no final de semana. Sim, você provavelmente não poderá sair da escola, em alguns finais de semana, durante a sua formação, por que ficará punido por alguma transgressão que cometeu. A lista de transgressões é imensa e vai desde o fato de não engraxar o seu coturno ou arrumar a sua cama, até tirar notas baixas ou deixar de cumprir alguma determinação de um militar mais antigo.

A pressão psicológica é uma constante em basicamente todos os cursos de formação e especialização do Exército...

Logicamente, as punições disciplinares tem um caráter meramente educativo nas escolas de formação, sendo algo que, assim como as provas e testes físicos, faz parte do processo de desenvolvimento profissional e moral dos futuros oficiais e sargentos nas FFAA (Forças Armadas). Você tem que entender que ficar punido por ter cometido erros leves é algo normal. Praticamente todos os militares de carreira, durante a sua formação, perderam pelo menos alguns finais de semana punidos na escola. NÃO SE DESESPERE e pense que você é o pior militar do mundo! Obviamente que também existem punições maiores, para transgressões mais graves, que podem culminar com prisão disciplinar e até mesmo com a expulsão do aluno. Infelizmente existem alguns casos de alunos que cometem essas alterações, como uso de drogas ou furto, sendo eles, via de regra, expulsos da formação. Uma outra coisa que nós militares consideramos muito grave é a "cola" e os "golpes" em provas e avaliações físicas. Em geral, quando são "plotados", os alunos que cometem essas infrações são punidos com prisão disciplinar ou, dependendo do fato, expulsos da escola de formação.


Toda essa rigidez tem por finalidade formar um oficial/sargento que tenha qualidades morais condizentes com a atividade que irão desempenhar na tropa que, via de regra, envolve risco de vida e a administração de patrimônio público. Como você irá confiar a vida de 35 soldados à um militar que foi pego roubando na escola de formação? É incompatível! Como você irá entregar um blindado nas mãos de um militar que já foi pego fumando maconha? Não dá! E essa disciplina acaba gerando um estresse muito grande nos alunos, sobretudo no começo de suas vidas militares, mas é algo que, com o tempo, acaba se tornando algo que facilita demais as nossas vidas. Viver em um ambiente organizado e disciplinado é muito mais fácil! Desse modo, esteja ciente de que a pressão psicológica vai existir sim, mas que esse processo tem como objetivo "separar o joio do trigo, os fortes dos fracos, as crianças dos homens/mulheres". Se você se mantiver determinado e focado em seus objetivos, verá que em algum tempo, atividades que antes eram extremamente trabalhosas e difíceis para você, irão fluir de uma maneira mais simples e fácil, gerando assim, muito menos estresse! Como dizemos, "não há bem que sempre dure, nem mal que nunca acabe". E sempre existirão os seus irmãos de farda para te apoiar. E isso nos leva ao tópico seguinte!


N° 3: É PRECISO SABER CONVIVER EM COLETIVIDADE!


Essa, com certeza, é uma das coisas mais impactantes, sobretudo no início da formação: a coletividade. A partir do momento em que você ingressa em uma escola militar, você terá que aprender, "na dor ou no amor", a conviver com outras pessoas. E isso vale para tudo. Você irá realizar as suas refeições em uma mesa cheia de alunos, terá que aprender a dividir os seus materiais e pedir ajuda quando precisar, terá que dividir a pia para escovar os dentes pela manhã e até mesmo o chuveiro onde irá tomar banho, além de dormir em um alojamento coletivo, onde sempre existirão aqueles colegas "barulhentos". A coletividade é algo muito difícil! Imagine você ter que aprender a realizar tudo isso, em um ambiente onde tudo tem tempo certo para ser feito e é avaliado. Você tem 10 minutos para tomar banho, antes de ir para a próxima atividade e, ao chegar no banheiro, percebe que existe uma fila enorme para usar o chuveiro e que, além disso, sempre existe aquele camarada que vai passar "horas" tomando o seu banho tranquilamente (resultado: seu tempo acaba e você tem que vestir de novo a sua farda sem haver tomado banho, suado, e p**** da vida); ou imagine quando você, escalado de faxineiro-de-dia no seu setor do alojamento, acorda 4h para limpar tudo e deixar tudo brilhando quando, no momento da alvorada, seus companheiros começam a abrir os seus armários, calçar os coturnos e derramar sujeira no chão e você percebe que vai ter que fazer tudo de novo, senão vai acabar sendo anotado pelo tenente e perdendo o seu precioso final de semana; ou mesmo quando você está exausto e quer ir dormir um pouco mais cedo, porém não consegue por que o seu vizinho de cama está namorando à distância pelo telefone com a sua amada... a lista de casos é enorme e você, queira ou não, vai ter que se adaptar à essa nova realidade (você tem algum caso engraçado de coletividade na caserna? conte para nós nos comentários!).

A coletividade é algo muito difícil!

Algo que me ajudou bastante e que, inclusive, comento neste vídeo lá no nosso canal no YouTube, foi que desde muito cedo iniciei na prática de esportes coletivos. Obviamente que isso não quer dizer que não tive problemas de adaptação, mas com certeza consegui me adaptar muitos mais fácil do que alguns colegas que haviam passado a maior parte da vida dentro de casa ou que eram muito introvertidos. Recomendo fortemente que você inicie a prática de atividades físicas coletivas! Outra coisa muito importante é exercitar a sua paciência e saber que todos nós, sem exceção, temos defeitos e coisas em que podemos melhorar. Muitas das vezes acabamos sofrendo demais por achar que as coisas deveriam ser feitas da nossa forma, do modo com que estamos acostumados. Mas amadurecer coletivamente significa entender que nem sempre nós estaremos corretos e que, muitas vezes, iremos perceber que podemos aprender muito mais do que imaginamos. Posso te afirmar, por experiência própria, que a coletividade, apesar de ser muito difícil, irá contribuir de uma forma bastante significativa no seu desenvolvimento pessoal, afinal, nenhum ser humano é uma ilha isolada. Muitas das situações que você irá vivenciar na caserna irão te ajudar na sua vida pessoal, no "mundo lá fora", sendo crucial que você saiba diferenciar as coisas que realmente são importantes daquelas que não são, para poder se estressar somente com aquilo que interessa e, principalmente, não perder as suas amizades por besteira. Um pouco de paciência e humildade com certeza irão te ajudar bastante! Lembre-se que todas que estão ali com você tem os seus próprio problemas e sentimentos, todos estão longe de casa em um ambiente totalmente estranho e novo. Aprenda a ajudar, compartilhar e, acima de tudo, respeitar o espaço do outro. Definitivamente isso vai transformar você em uma pessoa melhor!


BRASIL ACIMA DE TUDO!

#ELITEMIL

#ONDETUDOCOMEÇA



2 comentários